Saída lança dúvidas sobre futuro do regime, que escolhe sucessor no domingo; Raúl segue como líder interino

HAVANA –
O líder cubano Fidel Castro anunciou nesta terça-feira, 19, que não voltará a governar o país, lançando dúvidas sobre o futuro do regime que se prepara para escolher um sucessor dentro de apenas uma semana. Seu irmão Raúl Castro, de 76 anos, segue na Presidência interina e pode ser escolhido o novo líder do país pelo Parlamento no próximo domingo.

Em uma mensagem publicada pelo jornal oficial do Partido Comunista Cubano, o Granma, Fidel disse que não aceitará o cargo de Presidente do Conselho de Estado, para o qual vinha sendo eleito e ratificado desde 1976 e que “as novas gerações contam com a autoridade e a experiência para garantir a sua substituição”. “Trairia minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total que não estou em condições físicas de oferecer. Digo-o sem dramatismo”, escreveu Fidel, afastado do cargo há um ano e meio para tratamento de saúde.

“A meus queridos compatriotas, que me deram a imensa honra de me eleger recentemente como membro do Parlamento, em cujo seio devem ser adotados acordos importantes para nossa Revolução, comunico que não aspirarei e nem aceitarei – repito – não aspirarei e nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-chefe.” “Não me despeço de vocês, desejo apenas combater como soldado das idéias”.

Fidel disse que continuará escrevendo no Granma, mas sua coluna “Reflexões do comandante-chefe” passará a se chamar “Reflexões do companheiro Fidel”.

A renúncia abre caminho para Raúl sucedê-lo na presidência com plena autonomia, o que não tinha liderando um governo provisório. Raúl criou expectativas entre cubanos com modestas reformas econômicas, declarando no ano passado que o país necessitava “mudanças estruturais”, as quais não especificou, e reconhecendo que o salário governamental médio de cerca de US$ 19 mensais não satisfaz as necessidades básicas.

Apenas por volta das 5 horas da manhã, várias horas depois de o anúncio ter sido divulgado na internet, a rádio oficial começou a ler a carta de Fidel para os ouvintes matinais. Com a notícia se espalhando, os cubanos mantiveram a rotina, vendo a renúncia como inevitável, mas com uma certa tristeza. “É como perder um pai”, disse Luis Conte, um guarda-noturno de um museu. Ou, acrescentou, “como um casamento – um longo que terminou”.

Uma nova Assembléia do Poder Popular, o parlamento nacional, foi eleita em janeiro, e terá sua sessão inaugural domingo, quando renovará o Conselho de Estado, incluindo a presidência. O cargo foi oficialmente criado pela Constituição de 1976, e desde então foi ocupado por Fidel. Era amplamente especulado se ele teria condições de continuar exercendo o cargo. Ele foi eleito para a assembléia e poderia, legalmente, se apresentar como candidato à reeleição.

Fidel permanecerá como membro do parlamento e provavelmente será eleito como um dos 31 membros do Conselho de Estado. Ele também manterá o poderoso cargo de primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba. A liderança partidária é normalmente renovada nos congressos do partido, o último tendo sido realizado em 1997.

“Ele vai continuar sendo meu comandante-em-chefe. Ele vai continuar sendo meu presidente”, disse hoje Miriam, uma trabalhadora de 50 anos num ponto de ônibus de Havana. “Mas não estou triste por ele estar saindo, depois de 49 anos ele está finalmente descansando um pouco”.

Estado de saúde

Fidel, 81, foi o líder do movimento que derrubou o líder pró-Estados Unidos Fulgêncio Batista em 1º de janeiro de 1959. Ele comandou o regime cubano como primeiro-ministro por 18 anos, passando à Presidência do país por escolha da Assembléia, eleita após a aprovação da Constituição Socialista de 1976.

Desde agosto de 2006, o líder cubano estava afastado em virtude de uma operação. Ele delegou suas funções ao irmão, Raul, que comanda o regime desde então. “Sempre dispus das prerrogativas necessárias para levar adiante a obra revolucionária com o apoio da imensa maioria do povo”, escreveu Fidel, na edição desta terça-feira do Granma.

Ele acrescentou que, ao longo deste ano e meio, tentou admitir mas ao mesmo tempo evitar os boatos a respeito de seu “estado precário de saúde”. “Preocupou-me sempre, ao falar de minha saúde, evitar ilusões de que no caso de um desenlace adverso, trouxessem notícias traumáticas a nosso povo no meio da batalha.” “Prepará-lo para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha primeira obrigação depois de tantos anos de luta. Nunca deixei de assinalar que se tratava de uma recuperação “não isenta de riscos””.

Fidel chegou ao poder no dia de ano-novo de 1959 e transformou Cuba numa Estado comunista a 145 km da costa dos EUA em plena Guerra Fria. O ousado líder guerrilheiro sobreviveu a dezenas de tentativas de homicídio, uma invasão apoiada pela CIA e uma crise de mísseis que colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear. Dez governos americanos tentaram derrubá-lo, a tentativa mais famosa sendo a desastrada invasão da Baía dos Porcos em 1961. Com a exceção de monarcas, Fidel era o mais longevo chefe de Estado.

Raúl Castro há muito era o sucessor designado de Fidel. Ministro da Defesa por anos, ele participou do movimento revolucionário que derrubou o ditador Fulgêncio Batista desde 1953 e foi por décadas o número dois da hierarquia de poder.

Os Estados Unidos, tentando garantir que nenhum dos irmãos permaneça no poder, anunciaram um plano detalhado em 2005 que contempla uma assistência de Washington para facilitar uma transição democrática na ilha de 11,2 milhões de habitantes após a morte de Fidel. Mas autoridades cubanas insistem que não haverá transição, e que o sistema político e econômico socialista da ilha irá sobreviver a Fidel.
Fonte: estadao.com.br

Anúncios