por Rodrigo Burgarelli – O Estado de S.Paulo

Houve um tempo em que “hacker” era apenas sinônimo de criminoso, de nerd enfurnado em quarto escuro para roubar senhas de banco e arquivos confidenciais. Nessa época, militantes políticos eram cabeludos que discutiam eleição do diretório estudantil e distribuíam santinhos do partido universidade afora. Uma turma de jovens do País inteiro, no entanto, está pouco a pouco quebrando estereótipos – e o paulistano Pedro Markun, de 24 anos, é um dos principais símbolos dessa juventude que tem criado novas maneiras de ver política e internet no Brasil.

Jovem cria novas maneiras de ver política e internet

Nos últimos meses, Pedro está envolvido em grande parte dos projetos de web-ativismo que pipocam com cada vez mais frequência nas redes sociais. O objetivo por trás disso é organizar dados públicos disponíveis na internet para facilitar a compreensão – e interação – dos usuários comuns sobre temas tão diversos quanto as eleições presidenciais e os buracos nas ruas de São Paulo. Pura militância, nas suas próprias palavras. “A tecnologia só tem relevância se servir para criar alguma transformação social”, diz.

Foi com isso na cabeça que ele participou de uma das primeiras ações de destaque no ativismo online: a clonagem do Blog do Planalto. O site havia sido colocado no ar pela Presidência da República em setembro de 2009, mas sem espaço para comentários dos cidadãos. “Vimos aquilo e fizemos um clone idêntico ao oficial, mas com espaço para todo mundo comentar”, conta. Em 30 minutos, todo o planejamento da equipe do Planalto havia sido driblado – e a facilidade com que isso ocorreu deixou até o próprio Pedro assombrado.

Mudança. Alguns anos antes, ele mal imaginava que estaria hoje vivendo de projetos do tipo – atualmente, é dono de três empresas e colabora com trabalhos de todo o Brasil. Filho do jornalista e escritor Paulo Markun, Pedro nasceu em São Paulo e mudou para Florianópolis aos 12 anos. Lá, formou-se no colégio, tentou cursar História, desistiu, foi para Porto Alegre, tentou estudar Comunicação Digital, desistiu e ficou sem saber muito bem o que fazer.

O clique, diz ele, ocorreu ao ouvir uma palestra do pai a um grupo de estudantes. “Ele falou sobre a internet, como hoje tudo é acessível e as pessoas ficavam ali, à toa. A mensagem era que, se sua família pode dar um carro de presente, por que você não pega esses R$ 20 mil e compra uma câmera, uma ilha de edição e sai por aí fazendo vídeos e postando?”, explica.

Pedro não comprou uma câmera, mas decidiu dedicar-se ao ativismo mesmo assim. Mudou-se para São Paulo com o pai e resolveu investir no Jornal de Debates – um site de discussões que os dois Markuns tocam em conjunto desde 2006. Sua mudança foi simbólica – ele preteriu o Morumbi, bairro onde nasceu e cresceu, e foi morar na República, no centro, “o melhor lugar de São Paulo”.

Em paralelo, começou a frequentar eventos de cultura digital onde conheceu ideias e pessoas que não o largam até hoje. Uma delas é a consultora Daniela Silva, sua braço direito em uma das empresas e vários projetos, como o próprio Blog do Planalto. Com ela, Pedro organizou no fim do ano passado um dos eventos mais revolucionários da internet brasileira – o Transparência Hack Day, um evento que seguia uma lógica que ele defende ferrenhamente: “Se você junta um monte de gente legal numa sala, só pode sair coisas legais disso.”

Foi justamente o que ele fez. Durante dois dias, cerca de 120 pessoas de várias partes do Brasil se juntaram para sugerir como “hackear” sites públicos e organizar os dados de maneira mais intuitiva. “A ideia foi juntar quem tem interesse em informações públicas, como sociólogos, ativistas e gestores, com quem tem qualificação técnica para conseguir organizar esses dados”, diz o empresário, programador e sociólogo Pedro Belasco, que até hoje participa das discussões do grupo.

Frutos. Desde então, diversos “hack days” já foram organizados, a maioria pela internet. Um dos projetos mais importantes foi o SOS Alagoas, um site criado de maneira colaborativa após as enchentes deste ano no Nordeste. “Cruzamos as informações georreferenciadas de onde havia mais destruição com uma lista de voluntários e doadores de vários locais do País”, explica Pedro Markun. Cerca de 500 pessoas se registraram – mais até do que a Defesa Civil de Alagoas conseguiu mobilizar.

O ritmo intenso de trabalho atraiu até mesmo o pai para seu escritório – uma casinha de dois andares em uma vila comercial em Santa Cecília (centro), arejada e cheia de árvores, erguida por italianos na década de 1920. Paulo conta que, além dos projetos, foram os ideais que orbitam naquele universo que o fizeram trabalhar com o filho. “A política formal, da maneira como a conhecemos, está desaparecendo. Onde ela vai ressurgir? É exatamente nessa moçada que não tem partido, que usa esses modelos não convencionais.”

Além do lado ativista, Pedro comemora também a parte empresarial. Com os contratos que obtém com ONGs, governos e universidades, ele diz que consegue pagar as contas, levar uma vida confortável e militar politicamente nos intervalos. Para ele, trabalho e prazer se misturam – “só faço o que gosto, nunca tive patrão”. Ideias para o futuro também não faltam. É quase consenso que o ativismo online brasileiro ainda está engatinhando – o que não deixa de ser mais um estímulo para que novos projetos cada vez mais maduros saiam do papel. Frutos de uma juventude que, como Pedro, está mudando a maneira tradicional de se ver a internet, a política e – por que não? – o mundo.

ATIVISMO ONLINE

Blog do Planalto

Replica exatamente tudo que é postado no Blog do Planalto oficial, com a diferença que abre espaço para comentários – http://planalto.blog.br

SAC SP

Coloca no mapa todas as reclamações feitas pelos paulistanos no site da Prefeitura e mostra um ranking de reclamações – http://sacsp.mamulti.com

SOS ALAGOAS

Durante as enchentes em Alagoas e Pernambuco, mostrava no mapa quais eram as áreas mais afetadas e registrava voluntários e doadores – http://www.sosalagoas.al.org.br

Câmara Municipal de SP

Tabela as prestações de conta dos vereadores paulistanos de maneira mais simples que o site oficial – http://cmsp.topical.com.br

Livro Livre

Cada pessoa imprime um adesivo, cola em um livro e o “liberta” em uma praça ou escola para outras pessoas o lerem – http://www.livrolivre.art.br

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