‘Modelo de debate está esgotado’

Esse é o consenso entre 4 representantes de ONGs sobre o formato engessado dos encontros na TV

26 de outubro de 2010 | 1h 34

por Flávia Tavares

A sociedade tenta. Organiza-se, mobiliza-se, age. Monta entidades e ONGs voltadas para cidadania e política, para atrair o poder público para a discussão. Mas os políticos fogem do debate mais profundo. Mesmo quando estão, de fato, debatendo, como ontem, no encontro na TV Record. O Estado convidou quatro representantes de entidades da sociedade civil para assistir ao confronto e analisá-lo.

Seguindo mais ou menos o script usado em todos os debates até aqui, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) se acusaram e, quando puderam, falaram de suas realizações prévias. Mas o diálogo foi pobre. “É uma colcha de retalhos de temas, ninguém se aprofunda em nada”, disse Mauricio Broinizi, historiador e coordenador executivo da Rede Nossa São Paulo.

Realmente, o debate atravessava assuntos diversos a cada dois minutos de fala dos presidenciáveis. “Devia haver regra para que o candidato não saísse do assunto perguntado”, sugeriu o publicitário Pablo Ribeiro, do site Eu Lembro. Talvez tanta divagação seja calculada e os candidatos queiram atingir um eleitorado específico. “O discurso é para atingir a massa, mas fica até difícil diferenciar um e outro, é tudo muito confuso”, avalia o consultor Rafael Lamardo, diretor do movimento Voto Aberto e do Extrato Parlamentar.

Para Caio Magri, sociólogo e gerente do Instituto Ethos, Dilma pecou em demorar a apresentar dados do governo Lula em comparação aos do governo FHC. “É uma estratégia burra.” Broinizi e Magri lembraram que, nos primeiros debates pós-ditadura, quando “raposas” como Leonel Brizola e Mário Covas participavam, os confrontos eram mais empolgantes. “Claro que ali havia um espaço mais aberto para um projeto de futuro. Hoje, estamos engessados em modelos já definidos”, ponderou Magri. “Sem dúvida, o futuro era mais presente nos diálogos políticos”, concordou Broinizi.

As regras engessadas dos encontros televisivos podem contribuir para esse tom insosso atual. “O modelo parece esgotado. A plataforma para construir ideias e propostas, construir um diálogo político, é a internet”, acredita Lamardo. “O fraco debate na TV e no rádio é retrato da submissão da política ao marketing”, explica Broinizi. Ribeiro complementa: “Tanto que em todos os debates e em todos os programas os discursos são iguais”.

O balanço final dos convidados pelo Estado foi uníssono. Se, por um lado, os candidatos não se esforçam para aprofundar a discussão de temas relevantes para o País, por outro, o formato dos debates não estimula esse aprofundamento. “Esse modelo é intragável e reflete uma legislação ultrapassada, em que os candidatos podem prometer o que quiserem sem ser cobrados por isso”, disse Broinizi. “Se, até 2002, os encontros na TV tinham algum peso, hoje não têm. Ajudaram somente Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio no primeiro turno, porque eles tinham pouco tempo de propaganda”, conclui Magri.

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Análises

Uma luta de esgrima perigosa
Marcus Figueiredo

A primeira grande impressão que fica do debate é que eles esgrimiram muito perigosamente, porque Serra resvalou várias vezes na ofensa pessoal. Como bom debatedor, ele não chegou a ofender, mas a ideia era desqualificar Dilma. Repetiu sistematicamente que o que ela apresenta é tudo mentira, fantasioso e irreal. Com isso, a gente perde o debate e o telespectador é o principal prejudicado. O resultado imediato é Dilma acuada e relativamente nervosa, tentando evitar a possibilidade de ofensas pessoais. Apesar do clima belicoso, a diferença entre os candidatos – e não é o candidato sozinho, porque ele é parte de uma aliança – ficou clara no que se refere à Petrobrás, ao pré-sal e ao MST. Dilma defende transformar a riqueza do pré-sal para financiar o desenvolvimento social. Serra não deixa claro o que fará com esse recursos. Nesse particular, quando o assunto surge, o tucano diz que Dilma estragou a Petrobrás. A segunda diferença é uma frase que parece solta, mas não é. Dilma diz que a questão do MST é social, não de polícia. Serra sugere um tratamento de confronto.
É CIENTISTA POLÍTICO

Serra incisivo, Dilma vacinada
Carlos Melo

Mais um debate, o penúltimo da série; candidatos e público parecem cansados, desgastados. Ainda assim, não é hora para esmorecer, entregar os pontos. José Serra precisava mostrar energia e desconstruir a adversária, que lidera a disputa em todas as pesquisas. Isso o levou a mostrar-se mais incisivo no primeiro bloco, quando o encontro ainda não entrara pela madrugada e a audiência não era tão pequena. Buscou as questões de moralidade pública – que segundo as pesquisas foram o ponto fraco de Dilma, no primeiro turno. Mas, quem com Erenice fere, com Paulo Preto será ferido. Dilma mostrou-se calma, ligeiramente fria. Tinha vacinas e as usou o tempo todo. Ultrapassada a fase da moralidade pública, o tucano trouxe à luz a questão da Petrobrás, acusando Dilma e o PT de terem “privatizado” o petróleo para empresas nacionais e “estrangeiras”. Contraditoriamente com sua base social e com a história de seu partido, assumiu um discurso ao feitio do PT, mais realista que o rei, foi mais estatista que Dilma. Soou esquizofrênico.

É CIENTISTA POLÍTICO

Ambos vão ao ataque, mas empate persiste
José Paulo Martins Júnior

É difícil apontar um vencedor do debate de ontem, a exemplo do que ocorreu nos anteriores. Os temas também soaram conhecidos, mas vieram em falas mais duras do que vinha ocorrendo. Por ter começado após as 23 horas, tanto Dilma Rousseff como José Serra procuraram colocar os tópicos que consideram mais importantes e que podem tirar votos do adversário, como os escândalos Erenice Guerra e Paulo Preto, e reafirmaram suas posições em relação ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e à saúde pública. Foi Serra quem trouxe o tema das privatizações ao debate e acabou articulando um discurso esquizofrênico, tentando se mostrar mais nacionalista que Dilma. A petista, por sua vez, pareceu mais segura que nos debates anteriores – ainda tropeçou em alguns momentos, mas cometeu gafes menos graves. Para cativar eleitores de Marina Silva, ambos fizeram promessas em defesa do meio ambiente. Ontem, Dilma e Serra elevaram o tom de suas falas, mas mantiveram o placar empatado, o que, nesse momento, tem mais gosto de vitória para a petista que para o tucano.

É CIENTISTA POLÍTICO

Estilo ‘bateu, levou’ pode afastar eleitores
Marcelo de Moraes

Numa disputa que teve mais de 34 milhões de eleitores se abstendo, anulando suas escolhas ou votando em branco no primeiro turno, chega a ser surpreendente que os candidatos à Presidência utilizem o penúltimo debate na televisão para abusar da troca de acusações. A menos de uma semana da eleição, a petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra optaram por não deixar nenhum ataque sem resposta. Mesmo que, para isso, precisassem abrir mão de aprofundar suas ideias sobre temas centrais, como política cambial, carga tributária, segurança pública. Em compensação, não faltaram acusações mútuas de serem mentirosos e de terem aliados envolvidos com escândalos. É uma estratégia perigosa e de resultado imprevisível. Críticas são essenciais em debates. O estilo ‘bateu, levou’, consagrado durante o governo de Fernando Collor, não. Pior: nivela por baixo as duas candidaturas. O calor da disputa pode ter tirado o foco dos candidatos. Pode ter tirado algo mais: votos, que podem migrar para abstenção ou anulação.

É JORNALISTA

ALTOS

Dinâmica: A regra que permitiu perguntas diretas, de candidato a candidato, sem interrupções e sorteio de temas, deu mais fluência ao debate. O tempo de 2 minutos para resposta, réplica e tréplica permitiu aos candidatos mais tempo para desenvolverem os temas

Clima: Apesar da dificuldade de se expressar em vários momentos, Dilma estava mais segura e demonstrou uma postura mais agressiva do que em debates anteriores. Serra manteve a tranquilidade, mesmo quando foi acusado de mentiroso pela adversária

E BAIXOS

Sem resposta: Faltou a presença de jornalistas para formularem perguntas aos candidatos. Os profissionais poderiam replicar de forma mais direta quando o candidato fugisse do tema questionado, o que ocorreu diversas vezes durante o debate

Falha técnica: A falha do cronômetro no segundo bloco do programa, durante uma pergunta do candidato José Serra, deixou o clima tenso. Serra não conseguiu concluir sua questão para a adversária e chegou a chamar a atenção do mediador no ar.

Fonte: estadão.com.br

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