Ao deixar músicas renegadas no arquivo, esses gênios correm um sério risco. Um dia eles morrem, alguém abre essa gaveta, e aí tudo pode acontecer

Julio Maria – O Estado de S.Paulo

Estejam onde estiverem, eles não podem falar mais nada. E, suponha-se, isso deve ser bem angustiante. Michael Jackson é o morto da vez. Sua gravadora, a Sony Music, crente de estar fazendo um favor ao mundo pop, colocou no site do artista, no início da semana, uma música que Michael nunca gravou, especula-se, por não gostar nada do que fez. Breaking News, que estará em um disco de inéditas a sair no dia 14 de dezembro, ficou disponível por cinco dias, tempo suficiente para tirar o pino de uma granada. De tão “trabalhada em estúdio”, a canção chega a alterar o timbre da voz de Michael, um dos últimos patrimônios pelos quais ele prezou em vida. Brian Oxman, advogado de Joe Jackson, pai do cantor, falou em heresia. “Canções como essa são faixas incompletas que Michael Jackson disse várias vezes ser contra o lançamento.”

Os fãs pegaram o bonde e contestaram até a veracidade da voz de Michael, querendo dizer que aquele que canta é, na verdade, algum zumbi do Thriller. A Sony, em nota, garantiu que é Michael, sim, mas não se livrou da chuva de pedras que deve voltar a cair em seu telhado assim que lançar o disco póstumo, à revelia do músico.

Sem o outro lado para contestar, a obra de um artista passa a ser administrada por lei por seus herdeiros, que podem agir como guardiães do cálice sagrado ou caçadores de relíquia. A música brasileira, com talento para render imortais de sobra, começa a despertar para a indústria da obra post-mortem, algo que dá muito mais trabalho e dinheiro do que a obra em vida, já que mito é o tipo de coisa que não acaba nunca. Assédios de gravadoras para lançar registros empoeirados, artistas que aparecem com parcerias em fitas cassete de 1942, gente disposta a revirar gavetas para descobrir qualquer fagulha de criação, nem que seja do além. “Sempre aparece algum médium aqui em casa dizendo que tem uma música inédita psicografada do Cazuza. Mas Cazuza jamais escreveria com aquelas palavras”, diz João Araújo, pai do artista.

Incansáveis. O roqueiro Renato Russo é um dos que nunca descansam. O último relançamento de sua Legião Urbana, feito pela gravadora EMI, recolocou todos os discos do grupo nas lojas em LPs, CDs e novos formatos, sem músicas inéditas, mas com fotos e encartes que não havia nos originais. O jornalista e pesquisador Marcelo Fróes também realiza frequentes partos de materiais de Renato. Um deles, Renato Russo: Duetos, lançado este ano, traz encontros do roqueiro com outras vozes que rendem resultados, para pegar leve, passíveis de serem submetidos à análise do criador. “O Renato teve uma doença que o matou lentamente durante cinco anos. Se houvesse algo que ele gostaria que não fosse lançado, ele mesmo teria destruído”, diz Fróes. Não é bem assim para Marcelo Bonfá, baterista e amigo de Russo por três décadas. “Não concordo que ele seria frio e calculista a esse ponto. Nem se quisesse apagar algo ele conseguiria, era muita coisa.”

A ausência do OK de um morto não é exatamente a interdição daquilo que ele não teve tempo para lançar em vida. Cazuza, diz seu pai João Araújo, deixou “duas ou três letras” que devem vir à tona assim que um parceiro ideal for localizado para fazer as músicas. Algo que pode levar um bom tempo. “São canções que ele mesmo nos disse que gostaria de lançar.” O que jamais será permitido, segundo João, é uma traição aos princípios do artista, liberando, por exemplo, suas criações para serem alteradas e usadas em propagandas publicitárias. “Isso ele não permitiria.”

Outro gigante detalhista chama-se Tim Maia. Detalhista e bagunçado. Tim gravou de tudo, com muita gente, e deixou um rastro de feitos, muitos dos quais sequer localizados. Agora, seus representantes anunciam ao Estado que farão um rastreamento de tudo que leve a voz de Tim Maia. “Vamos começar uma grande pesquisa em janeiro de 2011. Já vi algum material, são fitas cassete, VHS, vamos ter de tomar muito cuidado”, diz Julio Cesar Figueiredo, advogado de Carmelo Maia, filho e único herdeiro reconhecido do cantor. Uma das obras mais aguardadas pelos fãs é o disco Racional 3, sequência de dois álbuns lançados em 1975, quando Tim fez parte da seita Universo em Desencanto. O problema foi quando o desencanto de Tim ficou maior que o universo, e aí a casa caiu.

Quando imaginou estar sendo trapaceado pelo líder da tal seita, mandou recolher todas as cópias dos álbuns. Oito anos depois de sua morte, os discos foram lançados. “Fizemos isso porque sabíamos pelo próprio Tim que era um desejo dele ter isso relançado. E os discos, musicalmente, são muito bons”, diz João Marcello Bôscoli, responsável pela gravadora Trama, que fez os relançamentos.

A sete chaves. Arquitetar a posteridade não é uma preocupação de malucos beleza. Sendo assim, Raul Seixas não pensou muito em assuntos além-túmulo e acabou deixando por aí um espólio vistoso. Tudo hoje é controlado por suas três filhas, mas quem tem as maiores relíquias é um homem chamado Sylvio Passos, produtor e fundador do primeiro fã clube de Raul no Brasil. Sylvio diz ter material para lançar mais dez álbuns inéditos de Raul. Canções novas, sobras de estúdio e muita, mas muita gravação ao vivo, algo que nem sempre é sinônimo de qualidade. Um de seus mimos é um show de Raul na segunda edição do Festival de Águas Claras, de 1981. Outra peça rara é uma versão de Cowboy Fora da Lei, que aparece em forma de country pesado e com outra letra. E o que ele jamais poderia lançar, em respeito à memória do amigo? “Ah, não posso nunca mostrar as gravações que chamávamos de “tratado de amenidades”. Quando estávamos muito loucos, começávamos a tocar e a falar mal de todo mundo. Gravamos tudo, mas essas coisas vão virar cinzas comigo.”

Presente e além. Mitos podem evitar indigestões póstumas preparando seus negócios para o caso de, sabe como é, baterem as botas – algo que Michael Jackson, Elvis Presley, Jimi Hendrix, John Lennon e Janis Joplin não fizeram por justamente sucumbirem do dia para a noite, sem aviso prévio. “Já lançaram um disco da minha mãe, o Ao Vivo no Festival de Jazz de Montreux (de 1982), que ela não gostava”, diz João Marcello Bôscoli, filho de Elis Regina. Aos vivos, a discussão parece agourenta. Muita gente que soube do conteúdo desta matéria preferiu bater três vezes na madeira e desligar o telefone.

“A gente aqui pensa no presente”, respondeu uma funcionária do escritório que cuida dos direitos autorais de Roberto Carlos, que pediu para não ser identificada. “É um assunto delicado. Ele não gosta de falar nisso.” Roberto está na lista dos alvos inquestionáveis da indústria da posteridade. Se já é mito em vida, imagine depois. Gravações e duetos com sua voz brotarão de Bom Jesus a Quixeramobim, tudo disputado a tapas. E o artista conhecido por cuidar de seus discos com um preciosismo de ourives pode ver sua obra brincar a farra do boi. “Ele tem mais de 200 músicas que nunca gravou, mas que outros gravaram. E dezenas de obras inéditas que nunca foram gravadas por ninguém. Essas ficam no estúdio, com ele”, diz a fonte. Se o Rei não gostar de nenhuma delas, a história dá a dica: que faça uma fogueira.

MEMORÁVEL TRÍADE

1. Raul Seixas

Raul deixou um legado de dar arrepios. O show ao vivo em Águas Claras, de 1981, nunca lançado, mostra a surpresa de Gonzagão ao olhar para a plateia, ver o povo com violões erguidos e perguntar: “É isso aqui a Sociedade Alternativa?” Outra pérola é uma Cowboy Fora da Lei inédita.

2.Tim Maia

Gênio desorganizado, Tim dá trabalho ao filho Carmelo, que vai rastrear o País em busca das gravações do pai. Oito anos após a sua morte foram lançados os álbuns Racional 1
e 2, que Tim mandou retirar das lojas por não mais concordar com a seita que os inspirou.

3. Cazuza

Não deu muita sopa para o azar, deixando pouco material inédito. Seu pai, João Araújo, diz ter duas ou três letras nunca reveladas, que aguardam um parceiro ideal para virarem música. O que ele não permitiria é o uso de suas canções para fins publicitários.

Fonte: http://www.estadao.com.br/

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