por Christian Carvalho Cruz – O Estado de S. Paulo

O Martinho da Vila é aquele tipo de boa-praça que fala rindo. Pode estar dizendo algo da maior seriedade, só que as frases saem leves feito pluma, parecem não ter a menor gravidade. Mas não se deixe engambelar por esse bico-doce, principalmente se o verso for sobre o carnaval – uma coisa seriíssima pra ele. Tão séria que dá pena (do carnaval, não do Martinho). “Tudo gira em torno do lucro hoje. Ninguém faz mais nada por prazer. O carnaval está fora de sua origem”, ele comenta na entrevista a seguir, se referindo a algo que não é novo, mas, vindo de quem vem, a gente senta e ouve com atenção.

Martinho José Ferreira, 73 anos completados sábado, 12, “mas com a cabeça de 37”, compôs oito sambas e criou seis enredos (dois campeões) para sua Vila Isabel. A primeira letra, de 1967, parceria com Gemeu, ele chamou de Carnaval das Ilusões. Ilusão é artigo que ainda abunda entre bundas e tamborins hoje em dia, mas não no bom sentido. Ilusão acreditar que a top model madrinha da bateria está ali porque é a-pai-xo-na-da pela escola. Crer que o mestre-sala frequenta a quadra da escola desde pequenininho. Achar que o samba foi escrito por amor à arte e às origens. As ilusões carnavalescas agora são outras. E não custam barato.

Que o diga a Vila do Martinho. Neste ano ela levará à Sapucaí um enredo sobre cabelos. Devidamente patrocinada por uma marca de xampu. Chora, cavaco!

Qual foi seu primeiro carnaval?

No Rio tinha um bloco chamado Chave de Ouro, que saía na zona norte da cidade. Eu me lembro de gostar muito de brincar nesse bloco. Eu devia ter uns 12 anos. Era tão diferente… O carnaval era mais da cidade toda, sabe? A cidade inteira se envolvia. Havia coreto nos bairros, a folia se dava ali. Quem patrocinava eram os comerciantes da região. E até as pessoas que não eram do samba propriamente dito iam pras ruas fantasiadas, todo mundo participava.

Pobres e ricos se misturavam?

Os ricos brincavam em outro local, nos clubes, nos corsos, nos ranchos. Isso foi caindo e a escola de samba, absorveu tudo: as alegorias dos corsos, as fantasias dos ranchos. Até que ficou essa coisa enorme que é hoje. E aí, sim, com as escolas, é que começou a haver mistura entre pobres e ricos. Só que perdeu a interação com a cidade. Noutros tempos, o rádio só estaria tocando música de carnaval neste mês. O carnaval não é mais vivido por muito tempo. Passa logo. Hoje o dinheiro está mais presente e tudo ficou muito ligeiro. A velocidade do cotidiano influencia o carnaval de maneira marcante. Ninguém tinha muita pressa quando não havia organização oficial. Os blocos saíam na hora que quisessem, ficavam na rua o tempo que quisessem. Hoje, como aumentou a densidade demográfica, é preciso organizar. Se for tudo liberado a cidade para. E também não existiam escolas grandes. Você ficava na avenida o tempo que achava conveniente, sem a pressão do relógio.

A organização deixou o carnaval chato?

A organização fez a escola de samba ganhar uma importância enorme. Era uma coisa inicialmente só de sambista do morro, hoje é de toda a sociedade. Então, até TV resolveu entrar nesse lance, porque viu uma oportunidade de lucrar. O carnaval não era uma atividade lucrativa e nem era esse o objetivo. Mas assim vai ficar, porque as coisas não voltam para trás.

Quanto do carnaval é dinheiro e quanto é paixão hoje em dia?

Tudo é comercial, precisa gerar receita. Ninguém faz nada mais por prazer. O carnaval está completamente fora de sua origem. Virou indústria. O cara que é da escola de samba, que participa efetivamente, não precisa de dinheiro para sair no carnaval. Ele não paga a fantasia. Os que vêm de fora e pagam ajudam a bancar o sambista. Em contrapartida, para você desfilar numa escola de samba, se for de comunidade, tem que participar obrigatoriamente dos ensaios. Ensaio de escola de samba só falta ter cartão de ponto. Quem não aparece perde a fantasia. Mas o sujeito gosta, aquilo é importante para ele. Não por causa da televisão, porque ele quer ser visto, nada disso. Essa, aliás, é uma coisa que não mudou. O cara do morro gosta da escola porque ela continua sendo a única opção de lazer dele. Ele não tem clube com piscina. Tá longe da praia. Então a escola vira a vida do cara. Como alegria de pobre é pouca, a escola tem essa função: de alegrar, divertir, distrair.

Os ditos moradores do asfalto têm ligação, têm proximidade com o dia a dia da escola?

A maioria não tem ligação. Mas, como a escola de samba não é mais só do sambista, ela é de todos agora, e é uma coisa apaixonante, o cara do asfalto vai a um ensaio e é imediatamente contaminado, fica louco. É uma magia difícil de explicar. Inclusive, esse pessoal da sociedade também se submete às regras. A top model que vira madrinha da bateria tem que ir ao ensaio. Se não for, trocam ela. Há uma margem pequena de manobra. Uma escola sai com 3.500 componentes, em média. Ela dá 2 mil fantasias, para garantir que os moradores da comunidade possam desfilar. Agora, um gringo compra a fantasia e chega na última hora. Pra isso tem essa margem de 500 a 1.000 fantasias. A conta é a seguinte: uma ala de 100 componentes comporta até 30 gringos sem que eles atrapalhem o desfile (risos).

Quem ganha mais com as celebridades no carnaval: elas mesmas, a escola, a TV?

Há uma troca. O cara que sai na bateria não tem condição de ver uma estrela fora da TV ou da revista. Então, quando ela vai à quadra, o cara se sente honrado. Já o artista vive de cartaz, então celebridade desfila para aparecer, não por desfilar. Eu acho bom, porque mistura as classes sociais.

No sambódromo essa mistura é menor, não é? Tem camarotes pra uns, arquibancadas na chuva pra outros…

Ah, mas isso é o Brasil. A seleção em nosso país se dá pelo dinheiro. Para socializar o camarote só quando a sociedade brasileira estiver mais equilibrada. Por enquanto é o lucro que manda. Por isso o carnavalesco é profissional, os mestres-salas, as porta-bandeiras… Todos eles são funcionários contratados pelas escolas.

E você gosta que seja assim?

Não gosto. Eu preferia no passado, quando todos se sentiam donos da escola e se esforçavam para fazer a coisa acontecer. Os moradores iam varrer a quadra, vender cerveja nos ensaios… Hoje, não. Todo mundo ali está trabalhando. A Vila Isabel tem uns 400 empregados. Por um lado é bom, porque dá emprego, mas mata a paixão. Até no carnaval o capitalismo venceu. Antigamente, a glória de um sambista era ter seu samba cantado na avenida. Hoje tem resultados financeiros no jogo. Para seu samba ser escolhido, você tem que contratar um puxador que vá defendê-lo na quadra em todos os ensaios. Um puxador, dois ritmistas e um cavaquinho. Isso custa dinheiro. De graça ninguém faz mais. E o puxador pode ser nascido na Portela, por exemplo, mas é contratado pelo compositor para defender o samba da Vila Isabel. E ele vai, claro, pra ganhar um dinheiro.

Isso soa tão anticarnaval…

As escolas estão quase como os clubes de futebol. Eles não têm mais jogador, que pertence a empresários, patrocinadores, a todo mundo menos ao clube. As escolas também não têm mais o seu mestre-sala, o seu diretor de bateria. Terminou o carnaval, começam as contratações. As escolas disputam o diretor de harmonia que foi bem naquele ano, o mestre de bateria mais premiado… Neste ano, quando der abril já vai estar todo mundo contratado, e possivelmente por uma escola diferente da que desfilou.

De quanto dinheiro estamos falando?

O samba escolhido rende pros autores uns R$ 200 mil. O problema é que boa parte ele gasta antecipadamente, fazendo campanha, promoção. São mais ou menos 20 ensaios. Então ele tem que contratar a torcida, tem que pagar a cerveja, tem que dar certas vantagens pras pessoas torcerem pro seu samba dele. Você freta ônibus e leva gente de um bairro a outro pra torcer pro seu samba. Normalmente é assim: o cara acaba de defender um samba numa escola, o pessoal sai todo, entra no ônibus em que chegou e vai para outra quadra defender outro samba. Uma maluquice.

É assim até para um Martinho da Vila?

No ano passado o samba vencedor da Vila Isabel foi meu, sobre Noel Rosa. Mas foi diferente. A escola queria muito um samba meu e decidiu que não teria concurso. Mas aí alguém sacou que entra muito dinheiro nesse período de disputa dos sambas. As quadras ficam cheias, se vende muito ingresso, muita cerveja. Sem concurso, é prejuízo. Então decidiram fazer o concurso. Escrevi o samba e escola se encarregou de defendê-lo por mim. Não gastei muito do meu bolso. Mas aí, quando saiu o resultado, eles descontaram tudo o que tinham gastado na campanha. Pra mim sobrou muito pouco. Com um show simples eu ganho bem mais. Como negócio é ruim, mas eu adoro, é um prazer danado, uma oportunidade de mostrar minha capacidade criativa.

E se te chamassem pra fazer um samba sobre chocolate porque o desfile vai ser bancado por um fabricante de chocolate?

Pois é… Hoje o carnaval está atrelado a isso. É um problema. Uma escola para ser competitiva tem que gastar uns R$ 5 milhões. Ela tem da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) uns R$ 3 milhões. Faltam R$ 2 milhões, que pode ganhar com ensaios, venda de fantasia, ingressos, etc. Eu acho que com criatividade dá para fazer um carnaval bem bom com isso. Mas dentro do padrão atual, que é o luxo, uma alegoria custando o preço de um apartamento, a escola acaba pensando primeiro em quem pode bancar o desfile e só depois define o enredo. Antigamente era o contrário. Digamos que eu achasse legal fazer um enredo sobre a história do Estadão, por vontade minha. Eu faria e depois procuraria a direção do jornal pra ver se eles poderiam dar uma ajuda, uma colaboração. Se não pudessem, sairia do mesmo jeito. Agora é o oposto. Primeiro se procura o patrocinador, depois se pensa no enredo.

Mas isso não amarra a criatividade?

É mais difícil e menos apaixonante. Fazer um samba sobre o Noel Rosa é mais legal do que fazer sobre um sobre cinzeiro, sobre cerveja ou qualquer outro produto. Isso explica a pirotecnia e o luxo dos carros, das fantasias. É para preencher a falta de criatividade. É como o artista. Se o cara canta bem, sozinho faz um show. Basta uma sonorização legal, uma iluminação básica e ele faz um espetáculo apaixonante e inesquecível. Hoje tem uns aí que até sobrevoam a plateia, pendurados em cabo de aço. É uma coisa complicada…

Por causa do incêndio na Cidade do Samba essa semana decidiu-se que não haverá rebaixamento no desfile deste ano. Também foi bonito ver escolas rivais se oferecendo para ajudar as que perderam alegorias e fantasias no fogo. Será que esse incêndio, por mais triste que seja, vai depurar um pouco essa pegada mercantilista do carnaval?

Não, não, não. As escolas sempre se ajudaram. Me lembro de uma época de vacas magras na Vila Isabel em que eu recorri a escolas adversárias. Bati em diversas portas e cada uma contribuiu com o que pôde. Me emprestaram uma alegoria aqui, outra coisinha ali… Rivalidade ferrenha é só no dia do resultado. Nem no dia do desfile tem. Isso vem da noção de comunidade, eu acho. Aquela coisa de bater na porta do vizinho pra pedir açúcar, sabe como é? Mesmo que as famílias não se gostem, o camarada dá, porque sabe que no dia seguinte pode ser ele precisando do açúcar. Teve um ano que uma escola chegou na avenida sem nenhum instrumento da bateria, não me lembro que problema deu. Então, momentos antes do desfile, as escolas que já tinham desfilado emprestaram os instrumentos. Mas o incêndio não vai mudar nada. Até porque o dinheiro continua forte. A Grande Rio vai receber uma ajuda extra de R$ 1,5 milhão. A Portela e a União da Ilha, R$ 750 mil cada. O que vão repensar é só a segurança dos barracões, porque não dá pra ficar cara com maçarico perto de isopor.

Você vai desfilar neste ano?

Eu quero realizar um sonho: desfilar como simples componente. Isso nunca aconteceu. Eu sempre saí com alguma função. Na ala dos compositores, como diretor disso e daquilo, ou para levantar aplausos da torcida. Agora eu quero desfilar sem função, só para curtir mesmo.

Fonte: Estadao.com.br

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