Jihadistas não têm mais a mesma força na sociedade árabe
28 de fevereiro de 2011 | 0h 00

por Yassin Musharbash Der Spiegel – O Estado de S.Paulo

Um dos efeitos colaterais da revolta árabe é que a bolha jihadista explodiu, pelo menos no momento. As revoltas populares na Tunísia, no Egito e na Líbia mostraram de modo impressionante quão pouca voz os jihadistas têm nas sociedades árabes. Contrariamente à propaganda que vêm difundindo há décadas, seu potencial de mobilização é praticamente inexistente.

Seu objetivo original – derrubar os regimes seculares no mundo árabe – foi alcançado por outros, incluindo grupos que são inimigos declarados da Al-Qaeda e também de seus aliados: secularistas, estudantes com orientação ocidental, mulheres politicamente ativas, pessoas que apoiam a democracia e islâmicos moderados. Não foi a Al-Qaeda que assumiu a vanguarda, mas a juventude secular, iniciada na internet, do mundo árabe. E ninguém, nas praças e ruas de Túnis a Benghazi, defendeu uma teocracia nos moldes do Taleban ou a visão do mundo islâmico pregada pela Al-Qaeda.

Que revelação embaraçosa! Os que vivem no universo do líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, e seus associados, recusam-se a aceitar esta realidade. Já há uma tentativa para reinterpretar os recentes acontecimentos.

Inicialmente, parecia que a rede terrorista não tinha palavras para comentar essas rebeliões em massa. Agora, aos poucos a interpretação da Al-Qaeda dos eventos recentes no Oriente Médio vai ficando clara.

A Al-Qaeda oferece uma combinação de apoio às revoltas e de alertas terríveis. Na quinta, a AQIM – Al-Qaeda do Magreb Islâmico, braço da organização na África do Norte – declarou seu apoio à revolta na Líbia. Naturalmente, essa revolta é retratada como “jihad”, ao mesmo tempo que a Al-Qaeda insiste que tem sentido a rebelião dos líbios contra o ditador Muamar Kadafi, pois ele é “um inimigo de Deus”. Além disso, a AQIM afirma, com certa audácia, que tem “lutado consistentemente e unicamente na sua defesa”.

Ayman al-Zawahiri, o segundo no comando da Al-Qaeda e um dos jihadistas egípcios que passou a vida combatendo o regime ímpio do país, emitiu comunicado sobre a situação no Egito em 18 de fevereiro.

Ele se congratulou com os revolucionários, mas a primeira coisa que se viu compelido a dizer sobre seu país natal foi que ele é “secular e democrático” e que isso tem que mudar.

É surpreendente. Enquanto centenas de milhares de egípcios foram às ruas precisamente porque o regime não era democrático, este é exatamente o aspecto enfatizado por al-Zawahiri como a razão de uma revolta. É enorme e embaraçosa a diferença entre os revolucionários de fato e os aspirantes, especialmente quando al-Zawahiri eleva o tom e acusa Mubarak de ter manipulado as eleições. Não é exatamente uma análise coerente.

Ele tinha muito pouco mais para oferecer do que um alerta para não se ignorar o Alcorão como guia para a ação. Sugeriu que aqueles que ganharam a liberdade na Tunísia, no Egito e na Líbia sejam usados no trabalho missionário e como ativistas para ajudar a formar o futuro no sentido jihadista.

É improvável que isso vá transpirar. É muito mais provável que os islâmicos moderados assumam este papel, que não terá nada a ver com os objetivos da Al-Qaeda.

Por mais humilhados que a Al-Qaeda e seus aliados estejam no momento, não é uma situação necessariamente permanente. É mais fácil combater governos democráticos do que déspotas, e o caos sempre foi um terreno fértil para os jihadistas. O jihadismo ainda não foi derrotado.

Graças às revoltas, ele apenas tornou-se reconhecível pelo que é: a ideologia e a prática sangrenta de uma pequena minoria em meio a árabes e muçulmanos.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
É ESPECIALISTA EM AL-QAEDA E TRABALHA NO JORNAL ALEMÃO “DER SPIEGEL”

Fonte: Estadao.com.br

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