Aqui está um artigo sobre o aeroporto de Montezuma MG, que é um verdadeiro elefante branco, algo que não teria a menor necessidade de ser construido.

publicado originalmente em 25 de agosto de 2014 em  http://www.viomundo.com.br/

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por Luiz Carlos Azenha, de Montezuma, em Minas Gerais

Houve um tempo em que as piscinas do balneário de Montezuma, na região do Alto Rio Pardo, em Minas Gerais, ficavam abarrotadas de gente.

A foto acima foi feita diante de um dos restaurantes da cidade, de comida muito honesta, numa recente noite de domingo.

O vazio de uma das principais ruas do centro reflete a “maldição” que se abateu sobre o município, de mais ou menos 8 mil habitantes, desde que o prefeito decidiu reformar o balneário.

A dona do restaurante nos disse que sobrevivia “de teimosa”, graças especialmente às quentinhas que fornece a moradores da cidade.

Oficialmente, o incentivo ao turismo foi a explicação dada pela assessoria do candidato Aécio Neves para a reforma do aeroporto de Montezuma, que custou cerca de R$ 300 mil e foi feita quando ele era governador de Minas Gerais. O aeroporto, nunca homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), é hoje um elefante branco, praticamente abandonado.

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Fotos Luiz Carlos Azenha

No caminho entre Montezuma e Mortugaba, no sul da Bahia, fica a Perfil Agropecuária e Florestal, de cerca de 900 hectares, que pertenceu ao falecido pai de Aécio — ex-deputado estadual e federal — e hoje faz parte do patrimônio do candidato do PSDB ao Planalto.

Deu em O Globo, em reportagem assinada por Chico de Gois, a explicação da assessoria de Aécio para a obra do aeroporto. O argumento: Montezuma “está situada em uma das regiões mais pobres do estado e tem como principal eixo estratégico para o seu desenvolvimento a atividade turística a ser desenvolvida a partir do balneário de água quente”.

Fato. Porém, se este era o plano, por enquanto inapelavelmente fracassou.

Seria jornalisticamente desonesto atribuir ao ex-governador Aécio Neves a sucessão de erros que se deu desde a reforma do aeroporto, em 2008. Talvez fosse mais adequado falar de Montezuma como um microcosmo da política brasileira, onde as diferentes esferas de governo não se falam, onde planos de governos são descontinuados, onde grupos políticos disputam o poder sem considerar o interesse público, onde há muita improvisação e, certamente, corrupção.

Experimentei pessoalmente as águas quentes de Montezuma em um hotel que fica bem diante do balneário, hoje tão fantasma quanto o aeroporto da cidade.

Dos 22 quartos disponíveis na pousada, apenas três estavam ocupados. O funcionário da recepção nos disse exatamente o mesmo que a dona do restaurante repetiria mais tarde: o proprietário manteve o empreendimento aberto “de teimoso”.

Tentou cavar um poço em sua propriedade, em busca da mesma água quente do balneário, mas não foi bem sucedido. Acabou fazendo um acordo com o prefeito, que permitiu ao dono do hotel transferir a legítima água quente de Montezuma para a piscina do estabelecimento.

Foi onde tive um prazeroso banho nas águas naturalmente quentes ao lado de dois outros hóspedes.

Cópia de agua suja

Água parada numa das piscinas do balneário, que atraia turistas de toda a região

O retrato que encontramos em Montezuma, hoje, contrasta em muito com o do passado, segundo o relato de moradores. Em fins-de-semana, dezenas de ônibus chegavam trazendo turistas para as termas, com vários piscinões abastecidos com água corrente, com temperaturas de 37 a 41 graus centígrados.

Não há registro de que o asfaltamento da pista do aeroporto tenha de fato incentivado a chegada de visitantes, já que nunca houve vôos regulares para Montezuma. Era turismo popular, através de ônibus fretados, com a entrada no balneário custando em tempos mais recentes 20 reais. Nos fundos ficavam apartamentos para aluguel e uma área com mesas e bancos de concreto.

Hoje, tudo abandonado.

Montezuma, em si, é uma cidade bastante simpática. Pinturas rupestres na serra da Macaúba são outro atrativo que poderia compor um “pacote” capaz de atrair turistas. Mas é uma proposta altamente discutível, do ponto-de-vista econômico, se essa atividade seria mesmo suficiente para sustentar vôos regionais. Só o tempo dirá.

Moradores afirmam que o auge do otimismo local se deu logo depois da obra no aeroporto, quando houve forte especulação sobre investimentos bilionários na exploração de minério de ferro no norte de Minas, uma das regiões mais pobres do Estado. Como informamos anteriormente, Montezuma deu um salto considerável no IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano, graças a uma série de investimentos estaduais e federais, diretos ou através de projetos sociais. Porém, o IDH regional continua bem abaixo da média de Minas Gerais.

As jazidas de minério de ferro, estimadas em 20 bilhões de toneladas de baixo teor, teriam o poder de transformar o panorama regional se o lucro com a exploração revertesse para as populações locais, o que nem sempre é o caso. Em geral, o dinheiro enriquece mesmo as grandes mineradoras. De qualquer forma, um jornal mineiro chegou a falar em R$ 7 bilhões despejados no norte de Minas até 2016, dinheiro que fez bocas salivarem, mas que pelo menos até agora nunca se materializou.

Independentemente da promessa de riqueza, nunca ficou claro o motivo do investimento no aeroporto ter sido destinado a Montezuma, de 8 mil habitantes, e não a cidades bem maiores, como Taiobeiras ou Rio Pardo de Minas — ambas com cerca de 30 mil habitantes –, especialmente considerando que esta última está na lista oficial de municípios cujo subsolo contém jazidas de minério de baixo teor de ferro.

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Houve até o sonho de que a modesta construção no aeroporto daria lugar a um terminal para receber turistas e gente da mineração

Segundo a Folha Regional, que traz notícias da região do Alto Rio Pardo, foi o ex-prefeito Erival José Martins quem deu início às obras de reforma do balneário. O dinheiro para a revitalização, R$ 1,7 milhão, veio do governo de Antonio Anastasia, sucessor de Aécio Neves, também do PSDB. A empresa contratada foi a Construtora JRN Ltda.

Porém, dois anos completos já se passaram e o balneário nunca reabriu. O comércio que dependia do turismo definhou. Hotéis e restaurantes que dependiam dos visitantes entraram em crise.

Moradores ainda frequentam piscinas menores, nos fins de semana, às quais tem acesso sem pagar.

Enquanto tomam banho sob jatos de água quente, descrevem uma intensa briga entre facções políticas locais.

Estimam que a renda passada do balneário, se bem investida, teria sido suficiente para mantê-lo permanentemente aberto. Alguns elogiam o ex-governador Aécio Neves, citando investimentos estaduais especialmente nas estradas da região. Porém, ninguém consegue explicar convincentemente o motivo da existência da imensa pista asfaltada, de cerca de 1.300 metros, bem na entrada da cidade. “Coisa do Aécio”, balbuciou mineiramente um dos entrevistados. A cidade foi informada do suposto escândalo através do Jornal Nacional.

Brincando, sugiro a um grupo de banhistas que a cidade está sofrendo de uma variedade da maldição de Montezuma, a praga que o imperador azteca rogou no invasor espanhol Hernán Cortés.

Alguns se mostram desconfiados do forasteiro cheio de perguntas.

Não sei se é fato, mas um deles explica que Montezuma é o sobrenome do caçador que descobriu a fonte de água quente, que no tempo dos vaqueiros se tornou famosa no norte de Minas e no sul da Bahia*.

Santana da Água Quente foi o primeiro nome do povoado, que só se tornou município nos anos 90, com o nome de Montezuma.

À minha brincadeira o banhista brinca de volta: “A maldição de Montezuma foi maldição política”.

Ele provavelmente se referia a fatos recentes da disputa local pelo poder.

Cópia de agua correndo

Essa eu garanto: o banho é delicioso nas águas naturalmente quentes de Montezuma

O ex-prefeito Erival José Martins, que iniciou a reforma do balneário, foi reeleito em primeiro turno, em 2012, com 50,92% dos votos, ou seja, 2.194 sufrágios. Derrotou Ivo Alves Pereira, do PP, que teve 2074. Uma diferença de apenas 120 votos.

Erival liderava uma coalizão que pode até parecer estranha. Nem tanto, se considerarmos que na campanha presidencial deste ano banqueiros e socialistas atuam lado a lado numa das campanhas, sem terra e usineiros em outra. Coisa do pragmatismo brasileiro.

Erival, conhecido como Grande, juntou na mesma chapa o PDT, o PR, o PCdoB e o PSDB.

Porém, em maio do ano passado, ele e sua vice foram cassados por abuso de poder econômico durante as eleições de 2012.

Imagens divulgadas à época, utilizadas como prova pelo Ministério Público, mostraram a distribuição a eleitores, sem qualquer tipo de cadastro e em carros de campanha, de cestas básicas enviadas pelo governo de Minas para vítimas da seca. O candidato também teria trocado votos por sacos de cimento e material de construção, segundo o MP. O prefeito recorreu mas a decisão da Justiça Eleitoral foi mantida.

Com o tucano Erival cassado, eleições suplementares foram realizadas no final do ano passado. Ivo Pereira, o derrotado em 2012, desta vez venceu. Ele tem prometido aos moradores que até dezembro de 2014 o balneário voltará a funcionar.

Cópia de gerando emprego

Hoje, na porta do balneário, uma placa do governo de Minas foi parcialmente coberta, provavelmente por conta do período eleitoral. Visível, apenas a inscrição “trabalhando e gerando emprego”.

Alguns homens de fato trabalham na limpeza do local.

Pelo menos até o fim deste ano, a fabulosa pista asfaltada do aeroporto local continuará abandonada, a não ser pelo desembarque eventual de candidatos em busca de votos, dizem os moradores.

Com sorte, nenhum dos montesumenses que usam a pista para fazer caminhadas e manter a forma física, de manhãzinha e no final da tarde, será atropelado durante pousos que, por conta da falta de homologação da ANAC, são formalmente ilegais.

Se a ideia de reformar a pista era mesmo estimular o turismo, passou a ser impossível fazê-lo desde que o balneário foi fechado, há 24 meses.

Em outras palavras, se os planos eram genuínos, o choque de gestão acabou congelando uma importante atividade econômica da cidade.

Tem mesmo razão aquele banhista: se alguma maldição se abateu sobre Montezuma, em tempos recentes, foi mesmo a da política.

* Veja nos comentários uma explicação melhor fundamentada para o nome do município

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PS do Viomundo: Este site se reserva o direito de manter em sigilo o nome dos entrevistados, considerando que numa cidade pequena declarações consideradas politicamente inconvenientes podem resultar em represália.

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