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Vídeo feito pelo canal Terça Livre, expondo alguns fatos escondidos sobre o Brasil. Vale a pena ver. Entrevista concedida ao vivo.

 

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Entrevista com a cantora Pitty, realizada no programa The Noite, no SBT em 08/10/14.

Entrevista com Maurício de Sousa realizada pelo Jacaré Banguela Fora do Ar.

por Christian Carvalho Cruz – O Estado de S. Paulo

O Martinho da Vila é aquele tipo de boa-praça que fala rindo. Pode estar dizendo algo da maior seriedade, só que as frases saem leves feito pluma, parecem não ter a menor gravidade. Mas não se deixe engambelar por esse bico-doce, principalmente se o verso for sobre o carnaval – uma coisa seriíssima pra ele. Tão séria que dá pena (do carnaval, não do Martinho). “Tudo gira em torno do lucro hoje. Ninguém faz mais nada por prazer. O carnaval está fora de sua origem”, ele comenta na entrevista a seguir, se referindo a algo que não é novo, mas, vindo de quem vem, a gente senta e ouve com atenção.

Martinho José Ferreira, 73 anos completados sábado, 12, “mas com a cabeça de 37”, compôs oito sambas e criou seis enredos (dois campeões) para sua Vila Isabel. A primeira letra, de 1967, parceria com Gemeu, ele chamou de Carnaval das Ilusões. Ilusão é artigo que ainda abunda entre bundas e tamborins hoje em dia, mas não no bom sentido. Ilusão acreditar que a top model madrinha da bateria está ali porque é a-pai-xo-na-da pela escola. Crer que o mestre-sala frequenta a quadra da escola desde pequenininho. Achar que o samba foi escrito por amor à arte e às origens. As ilusões carnavalescas agora são outras. E não custam barato.

Que o diga a Vila do Martinho. Neste ano ela levará à Sapucaí um enredo sobre cabelos. Devidamente patrocinada por uma marca de xampu. Chora, cavaco!

Qual foi seu primeiro carnaval?

No Rio tinha um bloco chamado Chave de Ouro, que saía na zona norte da cidade. Eu me lembro de gostar muito de brincar nesse bloco. Eu devia ter uns 12 anos. Era tão diferente… O carnaval era mais da cidade toda, sabe? A cidade inteira se envolvia. Havia coreto nos bairros, a folia se dava ali. Quem patrocinava eram os comerciantes da região. E até as pessoas que não eram do samba propriamente dito iam pras ruas fantasiadas, todo mundo participava.

Pobres e ricos se misturavam?

Os ricos brincavam em outro local, nos clubes, nos corsos, nos ranchos. Isso foi caindo e a escola de samba, absorveu tudo: as alegorias dos corsos, as fantasias dos ranchos. Até que ficou essa coisa enorme que é hoje. E aí, sim, com as escolas, é que começou a haver mistura entre pobres e ricos. Só que perdeu a interação com a cidade. Noutros tempos, o rádio só estaria tocando música de carnaval neste mês. O carnaval não é mais vivido por muito tempo. Passa logo. Hoje o dinheiro está mais presente e tudo ficou muito ligeiro. A velocidade do cotidiano influencia o carnaval de maneira marcante. Ninguém tinha muita pressa quando não havia organização oficial. Os blocos saíam na hora que quisessem, ficavam na rua o tempo que quisessem. Hoje, como aumentou a densidade demográfica, é preciso organizar. Se for tudo liberado a cidade para. E também não existiam escolas grandes. Você ficava na avenida o tempo que achava conveniente, sem a pressão do relógio.

A organização deixou o carnaval chato?

A organização fez a escola de samba ganhar uma importância enorme. Era uma coisa inicialmente só de sambista do morro, hoje é de toda a sociedade. Então, até TV resolveu entrar nesse lance, porque viu uma oportunidade de lucrar. O carnaval não era uma atividade lucrativa e nem era esse o objetivo. Mas assim vai ficar, porque as coisas não voltam para trás.

Quanto do carnaval é dinheiro e quanto é paixão hoje em dia?

Tudo é comercial, precisa gerar receita. Ninguém faz nada mais por prazer. O carnaval está completamente fora de sua origem. Virou indústria. O cara que é da escola de samba, que participa efetivamente, não precisa de dinheiro para sair no carnaval. Ele não paga a fantasia. Os que vêm de fora e pagam ajudam a bancar o sambista. Em contrapartida, para você desfilar numa escola de samba, se for de comunidade, tem que participar obrigatoriamente dos ensaios. Ensaio de escola de samba só falta ter cartão de ponto. Quem não aparece perde a fantasia. Mas o sujeito gosta, aquilo é importante para ele. Não por causa da televisão, porque ele quer ser visto, nada disso. Essa, aliás, é uma coisa que não mudou. O cara do morro gosta da escola porque ela continua sendo a única opção de lazer dele. Ele não tem clube com piscina. Tá longe da praia. Então a escola vira a vida do cara. Como alegria de pobre é pouca, a escola tem essa função: de alegrar, divertir, distrair.

Os ditos moradores do asfalto têm ligação, têm proximidade com o dia a dia da escola?

A maioria não tem ligação. Mas, como a escola de samba não é mais só do sambista, ela é de todos agora, e é uma coisa apaixonante, o cara do asfalto vai a um ensaio e é imediatamente contaminado, fica louco. É uma magia difícil de explicar. Inclusive, esse pessoal da sociedade também se submete às regras. A top model que vira madrinha da bateria tem que ir ao ensaio. Se não for, trocam ela. Há uma margem pequena de manobra. Uma escola sai com 3.500 componentes, em média. Ela dá 2 mil fantasias, para garantir que os moradores da comunidade possam desfilar. Agora, um gringo compra a fantasia e chega na última hora. Pra isso tem essa margem de 500 a 1.000 fantasias. A conta é a seguinte: uma ala de 100 componentes comporta até 30 gringos sem que eles atrapalhem o desfile (risos).

Quem ganha mais com as celebridades no carnaval: elas mesmas, a escola, a TV?

Há uma troca. O cara que sai na bateria não tem condição de ver uma estrela fora da TV ou da revista. Então, quando ela vai à quadra, o cara se sente honrado. Já o artista vive de cartaz, então celebridade desfila para aparecer, não por desfilar. Eu acho bom, porque mistura as classes sociais.

No sambódromo essa mistura é menor, não é? Tem camarotes pra uns, arquibancadas na chuva pra outros…

Ah, mas isso é o Brasil. A seleção em nosso país se dá pelo dinheiro. Para socializar o camarote só quando a sociedade brasileira estiver mais equilibrada. Por enquanto é o lucro que manda. Por isso o carnavalesco é profissional, os mestres-salas, as porta-bandeiras… Todos eles são funcionários contratados pelas escolas.

E você gosta que seja assim?

Não gosto. Eu preferia no passado, quando todos se sentiam donos da escola e se esforçavam para fazer a coisa acontecer. Os moradores iam varrer a quadra, vender cerveja nos ensaios… Hoje, não. Todo mundo ali está trabalhando. A Vila Isabel tem uns 400 empregados. Por um lado é bom, porque dá emprego, mas mata a paixão. Até no carnaval o capitalismo venceu. Antigamente, a glória de um sambista era ter seu samba cantado na avenida. Hoje tem resultados financeiros no jogo. Para seu samba ser escolhido, você tem que contratar um puxador que vá defendê-lo na quadra em todos os ensaios. Um puxador, dois ritmistas e um cavaquinho. Isso custa dinheiro. De graça ninguém faz mais. E o puxador pode ser nascido na Portela, por exemplo, mas é contratado pelo compositor para defender o samba da Vila Isabel. E ele vai, claro, pra ganhar um dinheiro.

Isso soa tão anticarnaval…

As escolas estão quase como os clubes de futebol. Eles não têm mais jogador, que pertence a empresários, patrocinadores, a todo mundo menos ao clube. As escolas também não têm mais o seu mestre-sala, o seu diretor de bateria. Terminou o carnaval, começam as contratações. As escolas disputam o diretor de harmonia que foi bem naquele ano, o mestre de bateria mais premiado… Neste ano, quando der abril já vai estar todo mundo contratado, e possivelmente por uma escola diferente da que desfilou.

De quanto dinheiro estamos falando?

O samba escolhido rende pros autores uns R$ 200 mil. O problema é que boa parte ele gasta antecipadamente, fazendo campanha, promoção. São mais ou menos 20 ensaios. Então ele tem que contratar a torcida, tem que pagar a cerveja, tem que dar certas vantagens pras pessoas torcerem pro seu samba dele. Você freta ônibus e leva gente de um bairro a outro pra torcer pro seu samba. Normalmente é assim: o cara acaba de defender um samba numa escola, o pessoal sai todo, entra no ônibus em que chegou e vai para outra quadra defender outro samba. Uma maluquice.

É assim até para um Martinho da Vila?

No ano passado o samba vencedor da Vila Isabel foi meu, sobre Noel Rosa. Mas foi diferente. A escola queria muito um samba meu e decidiu que não teria concurso. Mas aí alguém sacou que entra muito dinheiro nesse período de disputa dos sambas. As quadras ficam cheias, se vende muito ingresso, muita cerveja. Sem concurso, é prejuízo. Então decidiram fazer o concurso. Escrevi o samba e escola se encarregou de defendê-lo por mim. Não gastei muito do meu bolso. Mas aí, quando saiu o resultado, eles descontaram tudo o que tinham gastado na campanha. Pra mim sobrou muito pouco. Com um show simples eu ganho bem mais. Como negócio é ruim, mas eu adoro, é um prazer danado, uma oportunidade de mostrar minha capacidade criativa.

E se te chamassem pra fazer um samba sobre chocolate porque o desfile vai ser bancado por um fabricante de chocolate?

Pois é… Hoje o carnaval está atrelado a isso. É um problema. Uma escola para ser competitiva tem que gastar uns R$ 5 milhões. Ela tem da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) uns R$ 3 milhões. Faltam R$ 2 milhões, que pode ganhar com ensaios, venda de fantasia, ingressos, etc. Eu acho que com criatividade dá para fazer um carnaval bem bom com isso. Mas dentro do padrão atual, que é o luxo, uma alegoria custando o preço de um apartamento, a escola acaba pensando primeiro em quem pode bancar o desfile e só depois define o enredo. Antigamente era o contrário. Digamos que eu achasse legal fazer um enredo sobre a história do Estadão, por vontade minha. Eu faria e depois procuraria a direção do jornal pra ver se eles poderiam dar uma ajuda, uma colaboração. Se não pudessem, sairia do mesmo jeito. Agora é o oposto. Primeiro se procura o patrocinador, depois se pensa no enredo.

Mas isso não amarra a criatividade?

É mais difícil e menos apaixonante. Fazer um samba sobre o Noel Rosa é mais legal do que fazer sobre um sobre cinzeiro, sobre cerveja ou qualquer outro produto. Isso explica a pirotecnia e o luxo dos carros, das fantasias. É para preencher a falta de criatividade. É como o artista. Se o cara canta bem, sozinho faz um show. Basta uma sonorização legal, uma iluminação básica e ele faz um espetáculo apaixonante e inesquecível. Hoje tem uns aí que até sobrevoam a plateia, pendurados em cabo de aço. É uma coisa complicada…

Por causa do incêndio na Cidade do Samba essa semana decidiu-se que não haverá rebaixamento no desfile deste ano. Também foi bonito ver escolas rivais se oferecendo para ajudar as que perderam alegorias e fantasias no fogo. Será que esse incêndio, por mais triste que seja, vai depurar um pouco essa pegada mercantilista do carnaval?

Não, não, não. As escolas sempre se ajudaram. Me lembro de uma época de vacas magras na Vila Isabel em que eu recorri a escolas adversárias. Bati em diversas portas e cada uma contribuiu com o que pôde. Me emprestaram uma alegoria aqui, outra coisinha ali… Rivalidade ferrenha é só no dia do resultado. Nem no dia do desfile tem. Isso vem da noção de comunidade, eu acho. Aquela coisa de bater na porta do vizinho pra pedir açúcar, sabe como é? Mesmo que as famílias não se gostem, o camarada dá, porque sabe que no dia seguinte pode ser ele precisando do açúcar. Teve um ano que uma escola chegou na avenida sem nenhum instrumento da bateria, não me lembro que problema deu. Então, momentos antes do desfile, as escolas que já tinham desfilado emprestaram os instrumentos. Mas o incêndio não vai mudar nada. Até porque o dinheiro continua forte. A Grande Rio vai receber uma ajuda extra de R$ 1,5 milhão. A Portela e a União da Ilha, R$ 750 mil cada. O que vão repensar é só a segurança dos barracões, porque não dá pra ficar cara com maçarico perto de isopor.

Você vai desfilar neste ano?

Eu quero realizar um sonho: desfilar como simples componente. Isso nunca aconteceu. Eu sempre saí com alguma função. Na ala dos compositores, como diretor disso e daquilo, ou para levantar aplausos da torcida. Agora eu quero desfilar sem função, só para curtir mesmo.

Fonte: Estadao.com.br

Entrevista com o criador da marca Chili Beans feita pelo estadao.com.br

Criador da marca de óculos Chiili Beans elogia a economia nacional e conta que nunca recebeu tantos convites como agora para vender a empresa para grupos internacionais Reportagem Letícia Bragaglia.

Veja em vídeo a entrevista completa aqui:

A exemplo do que fazia nos distantes e duros tempos da ditadura, às vésperas das eleições, em companhia de outros juristas e personalidades, ele ergue sua voz em defesa da democracia no país. Na semana passada, Hélio Bicudo, 88 anos, liderou um manifesto também pela liberdade de imprensa, segundo ele, ameaçada pelo governo Lula. O mesmo Lula com quem Bicudo, que foi ministro interino da Fazenda no governo João Goulart, deputado federal e vice-prefeito de São Paulo, durante a gestão de Marta Suplicy (PT), na condição de vice, disputou o governo de São Paulo e conviveu durante os 25 anos em que militou no PT.

Gazeta: Nossa democracia está mesmo ameaçada?

Bicudo: Acho que sim, porque o presidente da República ignora a Constituição, se acha acima do bem e do mal, e, com uma vitória que está delineada em favor da sua candidata, concentrará todos os poderes da República em suas mãos, além do apoio da maioria dos Estados e da população em geral. Com uma pessoa com esse potencial, e que não vê no ordenamento jurídico do país a maneira de estabilizar as discussões e debates, o Brasil pode caminhar para uma ditadura civil, sem dúvida.

Gazeta:O senhor, que ficou no PT por mais de 20 anos, imaginou que isso pudesse acontecer?

Bicudo:De início, não, mas no final, achava que aconteceria essa reviravolta. Foi marcante aquela carta aos brasileiros que Lula escreveu antes da sua primeira eleição, demarcando uma posição muito mais para o neoliberalismo do que para o socialismo.

Gazeta:O mesmo neoliberalismo tão criticado pelo PT, no governo de Fernando Henrique Cardoso. O senhor vê diferença nas práticas de ambos?

Bicudo:Não há nenhuma diferença, porque quem comanda as decisões políticas hoje, como ontem, é o próprio capital.

Gazeta:O PT indicava uma prática diferente…

Bicudo:O PT fazia uma oposição bastante forte nos governos Sarney e Fernando Henrique. A partir do governo Lula, a unanimidade popular que ele foi conquistando afastou a oposição do seu caminho. E o que aconteceu? Sobre o mensalão e os outros atos de corrupção apontados, nada se fez. Quando Lula diz que é presidente da República até sexta-feira à noite, e depois fecha a gaveta e só volta na segunda-feira, pratica crime de responsabilidade. Afinal, como presidente ele jurou obedecer às leis do país. E a Constituição não permite que um presidente da República participe da campanha eleitoral como ele está participando. É crime que leva ao impeachment, mas nem os partidos políticos, nem a sociedade civil movem nenhuma pedra contra isso.

Gazeta:Antes do primeiro governo Lula, falava-se do desejo do PT de ficar no poder por pelo menos 30 anos.

Bicudo:Não havia essa ideia, pelo menos no meu tempo. Pensava-se que o PT era um partido de massa, e iria trazer para os mais humildes uma estabilidade econômica.

Gazeta:Houve uma inclusão.

Bicudo:Ele trouxe em parte, porque a Bolsa-Família é mais um colaborador eleitoreiro. Apenas dá dinheiro, mas não dá nenhum estímulo para que a pessoa possa galgar outro patamar na estrutura da sociedade.

Gazeta:Pesquisas indicam que Dilma Rousseff seria eleita, hoje, presidenta da República. O que podemos esperar dela?

Bicudo:Quem continuará mandando no país vai ser Lula. Dilma diz que ela é o Lula. Então as coisas continuarão como estão, com a mesma corrupção, o mesmo manejo da coisa pública.

Gazeta:Como militante político, imaginava voltar às ruas em defesa da democracia e da liberdade de imprensa?

Bicudo:A gente fica frustrado, depois de uma longa luta em prol da democracia, ver o que estamos vendo. E acho que não temos democracia, até pela maneira pela qual se conduz a vida pública, onde um grupelho toma conta do governo, pondo nele seus parentes, seus amigos… Não é o governo do povo. Veja a própria constituição do Supremo Tribunal Federal, onde não se fez uma consulta maior para a escolha dos ministros. Ela foi pessoal, feita pelo próprio presidente. Leis passam na Câmara e no Senado, por atuação da presidência da República, que transformou o Legislativo em algo sem a menor expressão.

Gazeta:O senhor faz a descrição de um poder quase totalitário…

Bicudo:E é isso. Quem manda no país, passa por cima das leis é ele, Lula. Vai eleger a presidenta que fará o que ele quiser.

Gazeta:Como o senhor vê Lula?

Bicudo:Um homem inteligente, que poderia usar essa inteligência para implementar e fortalecer a democracia no país, mas optou por incrementar o poder pessoal.

Gazeta:Trata-se de um traço de personalidade?

Bicudo:Sim, com certeza. Ele sempre mandou no partido, afastou as lideranças que pudessem competir com ele. É o dono, sente-se acima do bem e do mal.

Gazeta:Em relação às denúncias de irregularidades no governo, sempre alegou nada saber.

Bicudo:Ele sabia de tudo, deixou as coisas escaparem. A oposição não atuou e, hoje, chegamos onde estamos.

Gazeta:Incompetência da oposição?

Bicudo:Foi inexistência de oposição.

Gazeta:Como o senhor deixou o PT, em 2005?

Bicudo:Saí porque achei que o partido não estava trilhando a estrada que havia traçado no seu nascedouro. Ele deixou de representar o povo. Pode até ter o voto do povo, mas representa os interesses daqueles que o comandam.

Gazeta:As muitas denúncias de irregularidades no governo Lula parecem não impactar a campanha de Dilma Rousseff.

Bicudo:Olha, Lula vive dizendo que a imprensa o prejudica. Eu acho que é o contrário.

Gazeta:Como?

Bicudo:A imprensa tem ajudado Lula e seus candidatos. Você não pega um jornal, um programa de televisão, que não exiba um retrato dele. O povo não vê o que está escrito além dá manchete. Funciona como propaganda.

Gazeta:Deixá-lo fora das páginas e fora das telas é quase impossível. Ele tem popularidade e peculiaridades. É “o cara”, pelo menos para o presidente Obama…

Bicudo:Mis-en-scène… Pergunto: com tudo isso, o que o Brasil conseguiu, do ponto de vista internacional? Zero. A questão da popularidade não tem relação com a eficiência. Olha o caso do Irã. Tem maior vergonha do que isso? Nossa política externa é péssima. O Brasil não conseguiu colocar uma pessoa em cargo relevante no conceito internacional. Em matéria de Direitos Humanos, botaram lá em Genebra uma pessoa que jejuna nessa área. E onde estão os direitos humanos no Brasil, onde o presidente aceita que a Lei de Anistia contemple também torturadores? E a compra de 36 aviões de caça? Uma brincadeira, desperdício de dinheiro público. Outra vergonha é essa movimentação toda pela Copa de 2014.

Gazeta:Por quê?

Bicudo:O dinheiro da construção de estádios poderia ser usado na Saúde, na Educação. Lula deu ao povo o que se dava durante o Império Romano: pão e circo. Ele dá Bolsa-Família, dá o futebol, shows, o povo vai se divertindo e vai votar em quem ele manda. Uma coisa é o Bolsa-Família eleitoreiro, a outra é dar o dinheiro e responsabilidade, Educação às pessoas.

Gazeta:Como viu o “ato contra o golpismo midiático”, contrário ao que revelou o “manifesto em defesa da democracia e da liberdade de imprensa e de expressão”, do qual o senhor participou, ambos em São Paulo?

Bicudo:Lula sempre diz que há uma revolução midiática para retirá-lo do poder. Os pelegos dele é que fizeram o movimento em contrário ao nosso.

Gazeta:Seu grupo conseguiu sensibilizar a opinião pública?

Bicudo:Acho que sim. Ontem, mais de 20 mil pessoas já tinham assinado o nosso documento. A semente foi plantada, e agora depende da sociedade. Porque o problema é também de pós-eleição. Repetindo o que já foi dito: se você não vigia, não tem democracia. Deve-se vigiar permanentemente quem governa o país, para que não haja desvios. Seja quem for eleito, independentemente do partido político.

Gazeta:Vê méritos neste governo?

Bicudo:A questão é: o que o governo pretende com sua atuação? Para mim, só autoritarismo.

Gazeta:O senhor foi candidato a vice de Lula, na disputa pelo governo de São Paulo. Conviveu com ele e o admirou num determinado momento.

Bicudo:Sim, mas os tempos mudaram completamente. Ele acabou com as lideranças do partido, e lançou uma pessoa que nem era do partido, tradicionalmente, à presidente. Hoje o PT não tem diferença nenhuma dos outros partidos.

Gazeta:Mas o senhor declarou voto para Marina, do PSol…

Bicudo:Sim, porque entre os candidatos que estão aí, é ela quem tem as melhores condições, do ponto de vista de sua vida, do trabalho que já fez e se propõe a fazer. Plínio de Arruda Sampaio tem um discurso muito bom, mas não teria condições. Ele se propôs a fazer uma campanha para mostrar que a democracia não se exerce como o que se vê hoje no país. Presidente não se mete em eleição. Não pode praticar atos eleitorais em favor do seu candidato. Essa é a posição de um chefe de Estado.

Gazeta:O que o senhor diria para o eleitor que ainda está indeciso?

Bicudo:Ele tem que pensar: nós queremos democracia ou não queremos? Ninguém lembra mais do regime militar, da ditadura do Getúlio. E a ditadura civil é um risco. Veja a questão do sigilo fiscal, que é um direito individual, e que foi aberto em alguns casos por motivos políticos. Mal usado, o poder que a máquina pública tem é capaz de acabar com uma pessoa.

Gazeta:Mesmo com de tudo isso, votar continua sendo importante.

Bicudo:Claro! Existe uma corrente grande que defende o voto nulo como uma rebelião. Mas a omissão não é a melhor solução. Temos que mostrar o que pensamos através do voto.

Relação conflituosa do presidente com a imprensa levou à realização de manifestações públicas

Má-fé.
Nos últimos dias, Lula afirmou que a imprensa atua de má-fé e que os jornais e revistas agem como se fossem partido.

Opinião pública.
Durante comício realizado neste mês, em Campinas (SP), ele declarou: “Tem dias em que alguns setores da imprensa são uma vergonha. Os donos de jornais deviam ter vergonha. Nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos. Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública”.

Manifesto.
Por causa dessa postura do presidente, na semana passada, em São Paulo, houve um ato público onde foi lido um manifesto em defesa da democracia e da liberdade de imprensa e de expressão, assinado por juristas, entre os quais Hélio Bicudo, e personalidades como o Cardeal Arcebispo Emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso, atores e intelectuais como Ferreira Gullar.

Reação.
Um dia depois, o PT e centrais sindicais como a CUT fizeram um “ato contra a mídia golpista”. O presidente do PCdoB, Renato Rabelo, teria dito que grandes veículos de comunicação brasileiros organizaram uma “conspiração” contra Dilma Rousseff.

Fonte: gazetaonline.globo.com

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